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Requisitos do Guia 33 Anvisa para validação

Às 6h, um alarme de temperatura pode evitar a perda de um lote inteiro de medicamentos. Mas, em uma auditoria, não basta provar que o alerta foi emitido: é preciso demonstrar que o sistema registrou, transmitiu, protegeu e disponibilizou aquele dado de forma confiável. É nesse ponto que os requisitos do Guia 33 Anvisa ganham relevância para operações farmacêuticas e para ambientes em que a temperatura sustenta decisões críticas de qualidade.

O que o Guia 33 Anvisa orienta

O Guia nº 33/2020 da Anvisa trata dos requisitos mínimos para a validação de sistemas computadorizados utilizados em processos de fabricação de medicamentos. Na prática, ele orienta como demonstrar que um sistema faz, de modo consistente e documentado, aquilo que a empresa precisa que ele faça.

O foco não é apenas o software. A validação considera o sistema como um conjunto: equipamentos, sensores, configurações, usuários, infraestrutura de rede, procedimentos, registros e controles de segurança. Para um monitoramento ambiental, isso inclui desde a medição de temperatura até o tratamento de uma ocorrência fora da faixa especificada.

O Guia 33 não substitui a avaliação regulatória da empresa nem transforma qualquer plataforma em automaticamente conforme. Sua aplicação deve ser definida pelo Sistema da Qualidade, de acordo com o uso pretendido, o impacto do processo e as normas aplicáveis à operação. Ainda assim, seus princípios são uma referência objetiva quando dados ambientais influenciam a qualidade, a liberação, o armazenamento ou a rastreabilidade de produtos.

Requisitos do Guia 33 Anvisa na prática

A validação não é um documento produzido no fim da implantação. Ela é uma abordagem baseada no ciclo de vida do sistema e no risco que uma falha pode gerar. Quanto maior o impacto de um dado incorreto, indisponível ou alterado, maior deve ser o nível de controle e evidência.

Para gestores de Qualidade, os principais pontos se traduzem em cinco frentes de trabalho:

  • Uso pretendido definido: a empresa precisa registrar o que o sistema deve fazer. No monitoramento ambiental, isso pode envolver medir temperatura em intervalos definidos, emitir alertas por faixa, manter histórico, gerar relatórios e registrar ações diante de desvios.

  • Gestão de riscos: devem ser avaliadas falhas que comprometam produto, processo ou integridade dos dados. Uma queda de conexão, um alerta não recebido, uma alteração indevida de limite ou a indisponibilidade do histórico são exemplos concretos.

  • Fornecedores e configuração sob controle: a solução escolhida, suas versões, integrações e parâmetros relevantes devem ser conhecidos e documentados. A empresa contratante continua responsável por avaliar se o sistema atende ao uso pretendido.

  • Testes documentados: é necessário comprovar que as funções críticas operam como previsto. Isso pode incluir testes de alarmes, perfis de acesso, registros de eventos, geração de relatórios, recuperação de dados e comportamento em situações de falha.

  • Integridade e segurança dos dados: dados devem permanecer atribuíveis, legíveis, contemporâneos, originais e precisos. Controle de acesso individual, trilha de auditoria, cópias de segurança e procedimentos de recuperação fazem parte dessa proteção.

O plano de validação organiza essas evidências. Ele define escopo, responsabilidades, critérios de aceitação, entregáveis e tratamento de desvios. Uma matriz de rastreabilidade também ajuda a conectar cada requisito do usuário aos testes que comprovam seu atendimento. Esse encadeamento reduz lacunas e acelera a consulta de evidências em uma inspeção.

O que muda para o monitoramento de temperatura

Um termômetro calibrado é indispensável, mas não resolve sozinho a necessidade de controle. Em uma operação conectada, o dado percorre uma cadeia: o sensor mede, o equipamento registra, a informação é transmitida, a plataforma processa limites, o alerta chega ao responsável e a ação é documentada.

Se qualquer etapa falhar sem ser percebida, a organização pode ter uma tela aparentemente normal e, ao mesmo tempo, perder a rastreabilidade de uma excursão de temperatura. Por isso, a validação do sistema computadorizado deve caminhar junto com atividades como calibração, definição de pontos de medição, mapeamento térmico quando aplicável e qualificação do ambiente ou equipamento monitorado.

Também é preciso separar responsabilidades. A calibração demonstra o desempenho metrológico do instrumento nas condições avaliadas. A validação demonstra que o sistema, configurado para aquele uso, suporta o processo e protege as informações geradas. Uma atividade complementa a outra.

Como estruturar um projeto de validação

O ponto de partida é uma reunião curta e objetiva entre Qualidade, operação, TI e fornecedor. Antes de discutir telas ou relatórios, a equipe deve responder: quais áreas serão monitoradas, qual faixa é aceitável, quem recebe alertas, em quanto tempo precisa agir e quais dados são críticos para a decisão de qualidade?

Transforme a rotina em requisitos do usuário

Um bom documento de requisitos do usuário não precisa ser extenso, mas precisa ser claro. Em vez de escrever “o sistema deve monitorar temperatura”, descreva o comportamento esperado: “o sistema deve registrar a temperatura da câmara refrigerada a cada intervalo definido, emitir alerta automático quando a faixa aprovada for excedida e manter o histórico disponível para consulta”.

Inclua necessidades reais da operação. Pode haver exigência de alertas por celular e e-mail, escalonamento quando não há confirmação, perfis de acesso para operadores e gestores, exportação de relatórios, registro de comentários em ocorrências e retenção de dados conforme a política de qualidade. O requisito só deve entrar se tiver finalidade operacional ou regulatória.

Avalie o risco antes de definir a profundidade dos testes

Nem toda função possui a mesma criticidade. A alteração de uma preferência visual tem impacto diferente da mudança de uma faixa de alarme em um refrigerador de vacinas. A análise de risco permite concentrar esforço nos controles que protegem produto, paciente e dado.

Essa avaliação deve considerar cenários reais: falta de energia, perda de internet, bateria baixa, falha de sensor, troca de equipamento, usuário desativado, alarme ignorado e tentativa de alteração de registros. Para cada risco relevante, defina prevenção, detecção e resposta. Assim, a validação deixa de ser burocracia e passa a proteger a continuidade operacional.

Teste o fluxo completo, não apenas a leitura

Um teste útil simula a rotina. Gere uma condição fora de faixa de forma controlada e verifique se a leitura foi registrada corretamente, se o alerta chegou aos destinatários definidos, se houve escalonamento quando previsto e se a ocorrência ficou disponível no histórico. Avalie também se o relatório permite entender o que aconteceu sem depender da memória de quem estava no turno.

Os resultados precisam ser revisados, aprovados e arquivados. Quando existe desvio de teste, ele deve ser investigado e resolvido antes da liberação para uso, ou formalmente aceito com justificativa e plano de ação. Assinaturas, datas e versões são detalhes que sustentam a credibilidade da evidência.

Controle mudanças após a liberação

A validação continua depois da implantação. Mudanças em software, sensores, limites, fluxos de alerta, integrações, infraestrutura ou perfis de usuário devem passar por controle de mudanças. A pergunta central é simples: essa alteração pode afetar o uso pretendido ou a integridade dos dados?

Em alguns casos, uma avaliação documentada será suficiente. Em outros, será necessário repetir testes específicos ou atualizar documentos de validação. Tratar cada atualização como irrelevante cria uma lacuna difícil de explicar depois.

Falhas comuns que comprometem a evidência

A primeira falha é tratar o monitoramento online como um substituto automático do procedimento de qualidade. A tecnologia reduz trabalho manual e amplia a visibilidade, mas limites, responsáveis, prazos de resposta e critérios de investigação precisam estar formalizados.

A segunda é compartilhar usuários ou utilizar acessos genéricos. Quando todos usam a mesma credencial, perde-se a atribuição das ações. A organização deixa de saber quem alterou um parâmetro, reconheceu um alerta ou gerou um relatório.

A terceira é confiar apenas em relatórios periódicos. Um relatório mensal pode comprovar uma tendência, mas não protege insumos diante de uma excursão que exige resposta imediata. Alertas automáticos, com destinatários e escalonamento bem definidos, reduzem o tempo entre a falha e a ação.

Por fim, muitas empresas validam na implantação e não revisitam o processo. Troca de equipe, expansão de áreas, alteração de produto armazenado ou mudança de faixa aceitável podem tornar a configuração original insuficiente.

Tecnologia que transforma dado em ação

Para ambientes regulados, o ganho não está em acumular gráficos. Está em manter uma evidência confiável e agir antes que uma condição ambiental se transforme em perda. Uma solução como o Monitore Senfio centraliza temperatura, umidade e pressão, automatiza alertas e disponibiliza relatórios, reduzindo a dependência de planilhas, papel e rondas manuais.

Ainda assim, a escolha da tecnologia deve considerar mais do que recursos visíveis. Avalie a clareza dos registros, a gestão de usuários, a disponibilidade de histórico, o comportamento diante de falhas, a documentação fornecida e a capacidade de suporte técnico. Um sistema simples de operar tende a ser melhor utilizado no turno mais crítico, quando ninguém pode perder tempo procurando informação.

A melhor evidência é aquela que continua íntegra quando a rotina é pressionada. Ao definir requisitos claros, testar o que realmente importa e manter o sistema sob controle, a empresa transforma o monitoramento ambiental em uma camada ativa de proteção para produtos, equipes e pacientes.

 
 
 

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